sexta-feira, 3 de abril de 2026

O Eldorado de Chinelo (e com Isca de Minhoca)

 Diz o ditado que o homem passa a vida procurando o tal do Eldorado. O sujeito gasta a sola do sapato em portos, aeroportos e rodoviárias, tenta aprender o sotaque de Lyon, arrisca o estômago com temperos exóticos na Guiana e, no fim das contas, descobre que a felicidade não fala francês nem usa curry. Ela, na verdade, mora logo ali, na curva de um rio caudaloso, e provavelmente está sentada num banco de praça esperando o tempo passar sem olhar no relógio.

Descobri Porto Amazonas no crepúsculo da vida, o que prova que a providência divina tem um senso de humor refinado: ela nos deixa rodar o mundo feito barata tonta para, só no final, nos dar o prêmio de consolação que, na verdade, é o Grande Prêmio.

Chegar em Porto Amazonas é como se alguém tirasse um véu dos nossos olhos — ou como se a gente finalmente limpasse os óculos depois de anos de poeira cosmopolita. A gente percebe que riqueza não é ter um extrato bancário com muitos zeros, mas sim ter um baixo falar e um riso espontâneo. Em Porto Amazonas, o silêncio não é ausência de som, é um estilo de vida.

A Metafísica da Pesca e do Trânsito

Existe algo profundamente filosófico em pescar num rio onde o peixe nunca morde a isca. Só belisca. É o triunfo da paciência sobre a ansiedade. No resto do mundo, se você lança a isca e nada acontece em dez minutos, você abre um chamado no SAC. Em Porto Amazonas, você  enche mais uma cuiada de chimarrão, olha para a água e agradece ao peixe por não interromper sua meditação.

E o trânsito? Ah, o trânsito! Enquanto nas metrópoles o motorista usa a buzina como se fosse um grito de guerra, aqui o dirigir é suave. Os "engarrafamentos" locais geralmente envolvem:

Uma saracura atravessando a estrada com pressa de quem vai ao banco;

Um jacu indeciso;

Uma lebre que corre só por esporte;

E, se você for um eleito dos deuses, um veado que te olha com aquele ar de quem sabe que você não tem nada mais importante pra fazer.

 

O Shopping do Futuro (ou do Presente)

Outro dia, ouvi um cidadão reclamar da falta de um Shopping Center. Ora, meu caro, o Shopping Center é a invenção do demônio para nos fazer gastar o que não temos em coisas de que não precisamos, cercados por luzes de neon que fritam o cérebro.

A beleza de Porto Amazonas é justamente a ausência do alvoroço. Se o mundo moderno é uma corrida de cem metros rasos, Porto Amazonas é um bocejo bem dado num domingo à tarde. E quer comprar algo? "Presto": dois ou três toques no celular e a mercadoria chega na porta de casa. O carro de entregas vira o nosso concierge particular, sem que precisemos enfrentar escadas rolantes ou estacionamentos pagos.

A Gente de Ouro

Mas o verdadeiro segredo do Eldorado paranaense não está no mapa, mas no RG de quem nasce aqui. É uma gente leal, simpática e solidária de um jeito que a gente achava que só existia em livro de banca de revista. É o tipo de lugar onde o "bom dia" não é uma convenção social, é um contrato de amizade.

Se eu soubesse que o paraíso tinha esse sotaque e esse andar manso, teria economizado muito em passagens aéreas. No fim das contas, a vida é simples. A gente é que complica, querendo colocar escada rolante onde o que realmente importa é o caminho empoeirado que leva ao rio.

Porto Amazonas me ensinou que a vida não é sobre chegar rápido; é sobre aproveitar a paisagem enquanto a saracura não atravessa a estrada.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

O Farol de Castelhanos e o Barco que Não Parte

Dizem que o GPS foi a maior invenção do século, mas quem conhece o Porto — o nosso Porto Amazonas — sabe que a tecnologia é um detalhe irrelevante diante da geografia do afeto. No Natal, as coordenadas mudam. A bússola de quem partiu em busca de uma cidade maior, de um amor mais complexo ou de um contracheque mais gordo, subitamente sofre uma interferência magnética. É o chamado das raízes, que em Porto Amazonas tem cheiro de rio e som de conversa de calçada.
A cidade, nesta época, veste-se de luzes com o entusiasmo de quem sabe que o figurino é importante, mas o elenco é o que vale. A praça brilha em multicolorido, um arco-íris elétrico que parece tentar convencer o verão de que o inverno do Papai Noel é apenas um erro de marketing. E no centro de tudo, a Prefeitura em forma de barco. É a única embarcação do mundo que não navega, mas que consegue transportar todo mundo para o mesmo destino: o agora.
Mas a verdadeira Estrela de Belém da nossa paróquia resolveu se esconder — ou se destacar — lá pros lados de Castelhanos de Fora. No sítio do finado "Seu" Getúlio e da forte Dona Mélia, no meio do breu do campo, surge uma casinha que decidiu peitar a escuridão. Fachada emoldurada de branco, uma árvore de luzes coloridas na frente e pronto: está feita a sinalização para os Reis Magos (que, se tiverem bom senso, vêm de carro pela estrada de chão). Aquela luz no fim do túnel verde é o lembrete de que, não importa o quão longe você vá, sempre haverá uma lâmpada acesa esperando o seu cansaço.
No centro, o ritual é o de sempre. Pessoas caminham devagar, exercendo o direito sagrado de não chegar a lugar nenhum. É o "flâneur" portamazonense. Cumprimentam-se todos: o vizinho de décadas, o primo que voltou de Curitiba com sotaque de quem mora em Londres, e o desconhecido que, por estar ali, deixa de ser desconhecido em três frases.
"Bonita a luz, né?" "Pois é. E o calor?" "Nem me fale. Mas amanhã tem que acordar cedo."
Essa é a liturgia local. A rua se enche, o povo se olha, a vida se reconhece. E então, como se houvesse um recolhimento obrigatório decretado pelo bom senso e pelo despertador, o centro vai esvaziando. Porque o Natal no Porto não é uma balada frenética; é um suspiro. É o momento de relaxar a musculatura da alma antes que a rotina nos chame para o trabalho na manhã seguinte.
Fica o silêncio, o barco-prefeitura ancorado no asfalto e, lá longe, em Castelhanos, aquela casinha piscando. O Natal, no fim das contas, é isso: saber que, por mais que a gente mude de cidade, de vida ou de sonho, sempre existe um Porto onde a gente pode ancorar a saudade e tomar um ar fresco antes de seguir viagem.