Diz o ditado que o homem passa a vida procurando o tal do Eldorado. O sujeito gasta a sola do sapato em portos, aeroportos e rodoviárias, tenta aprender o sotaque de Lyon, arrisca o estômago com temperos exóticos na Guiana e, no fim das contas, descobre que a felicidade não fala francês nem usa curry. Ela, na verdade, mora logo ali, na curva de um rio caudaloso, e provavelmente está sentada num banco de praça esperando o tempo passar sem olhar no relógio.
Descobri Porto Amazonas no crepúsculo da vida, o que prova que a
providência divina tem um senso de humor refinado: ela nos deixa rodar o mundo
feito barata tonta para, só no final, nos dar o prêmio de consolação que, na
verdade, é o Grande Prêmio.
Chegar em Porto Amazonas é como se alguém tirasse um véu dos nossos
olhos — ou como se a gente finalmente limpasse os óculos depois de anos de
poeira cosmopolita. A gente percebe que riqueza não é ter um extrato bancário
com muitos zeros, mas sim ter um baixo falar e um riso espontâneo. Em Porto Amazonas, o silêncio não é
ausência de som, é um estilo de vida.
A Metafísica da Pesca e do Trânsito
Existe algo profundamente filosófico em pescar num rio onde o peixe
nunca morde a isca. Só belisca. É o triunfo da paciência sobre a ansiedade. No
resto do mundo, se você lança a isca e nada acontece em dez minutos, você abre
um chamado no SAC. Em Porto Amazonas, você enche mais uma cuiada de
chimarrão, olha para a água e agradece ao peixe por não interromper sua
meditação.
E o trânsito? Ah, o trânsito! Enquanto nas metrópoles o motorista usa a
buzina como se fosse um grito de guerra, aqui o dirigir é suave. Os
"engarrafamentos" locais geralmente envolvem:
Uma saracura atravessando a estrada com pressa de quem vai
ao banco;
Um jacu indeciso;
Uma lebre que corre só por esporte;
E, se você for um eleito dos deuses, um veado que te olha
com aquele ar de quem sabe que você não tem nada mais importante pra fazer.
O Shopping do Futuro (ou do Presente)
Outro dia, ouvi um cidadão reclamar da falta de um Shopping Center. Ora, meu caro, o Shopping Center é a
invenção do demônio para nos fazer gastar o que não temos em coisas de que não
precisamos, cercados por luzes de neon que fritam o cérebro.
A beleza de Porto Amazonas é justamente a ausência do alvoroço.
Se o mundo moderno é uma corrida de cem metros rasos, Porto Amazonas é um
bocejo bem dado num domingo à tarde. E quer comprar algo? "Presto":
dois ou três toques no celular e a mercadoria chega na porta de casa. O carro
de entregas vira o nosso concierge
particular, sem que precisemos enfrentar escadas rolantes ou estacionamentos
pagos.
A Gente de Ouro
Mas o verdadeiro segredo do Eldorado paranaense não está no mapa, mas no
RG de quem nasce aqui. É uma gente leal, simpática e solidária
de um jeito que a gente achava que só existia em livro de banca de revista. É o
tipo de lugar onde o "bom dia" não é uma convenção social, é um
contrato de amizade.
Se eu soubesse que o paraíso tinha esse sotaque e esse andar manso,
teria economizado muito em passagens aéreas. No fim das contas, a vida é
simples. A gente é que complica, querendo colocar escada rolante onde o que
realmente importa é o caminho empoeirado que leva ao rio.
Porto Amazonas me ensinou que a vida não é sobre chegar rápido; é sobre
aproveitar a paisagem enquanto a saracura não atravessa a estrada.
