sexta-feira, 27 de março de 2026

A Biquinha e o Aceno de Dois Dedos


             

Mudar de cidade, para quem vem de uma metrópole, é como trocar um liquidificador barulhento por uma xícara de chá. O silêncio, de repente, é audível. E quando essa mudança te leva para um lugar chamado Porto Amazonas, a Capital Paranaense da Maçã, você começa a suspeitar que caiu num conto de fadas bucólico. Ou, pior, num set de filme onde todos são figurantes muito, mas muito, bem-humorados.

Eu, que achava que cortesia era só o nome de uma rua no centro, cheguei aqui e descobri que é um modo de vida.

Em Porto Amazonas, às margens do nosso rio Iguaçu — que por aqui parece ter tirado férias do estresse das quedas e está numa paz zen —, as pessoas não apenas se cumprimentam, elas se reconhecem. Não é aquele aceno protocolar de condomínio, onde você sorri e reza para que o vizinho não queira puxar conversa. É um "olá" de quem realmente está feliz por você estar vivo e andando na mesma calçada.

Mas o que me conquistou mesmo foi o aceno dos motoristas. Preste atenção, leitor: o motorista porto-amazonense (se é assim que se chama quem mora em Porto Amazonas, eu acho mais legal “amazônidas”) tem uma técnica que deveria ser patenteada como a "Etiqueta do Volante Relaxado".

Lá na cidade grande, o motorista usa a mão para buzinar, gesticular palavrões indecifráveis, ou, na melhor das hipóteses, para segurar o celular. Aqui não. Aqui, a mão esquerda, a que segura o volante em posição para manter o cruise control da tranquilidade, mal se move. São só dois dedos — o indicador e o médio, elegantemente — que levantam, fazem um ballet discreto no ar e voltam à posição. É um cumprimento minimalista. Um namastê automobilístico que diz: "Paz, irmão. E cuidado com a casca da maçã".

Toda vez que recebo esse aceno, sinto-me parte de um clube secreto de gente que não está com pressa.

E os pontos turísticos? Ah, a ironia geográfica!

Temos um Cristo no alto da colina, de onde se vê um tapete verde-e-dourado que é ora soja, ora trigo, ora aveia. É uma visão que te faz questionar o que diabos você estava fazendo na frente de uma tela de computador. Lá de cima, o maior perigo que se avista é um possível ataque de passarinho.

A Biquinha é a margem do rio, junto com o cais do porto são a essência do lugar. E a Prefeitura, essa sim é uma obra de arte do propósito. Ela foi construída em forma de barco, lembrando que a cidade era um importante porto que ligava o interior a Curitiba. O que é de uma poesia deliciosa, pois a estrutura de um barco remete à travessia, à chegada e, principalmente, ao fato de que ninguém está ali ancorado no mau humor.

Vindo da selva de pedra, onde "ar puro" é sinônimo de "ar-condicionado com filtro novo", e onde "clima agradável" depende da tomada, eu estranho essa minha nova rotina. Estranho acordar com o barulho de gralhas, sabiás e canários no Sítio do Pavão — com seus açudes, arroio e trilhas magníficas — em vez do motor de um ônibus.

Mas a verdade é que o prazer de estar aqui é proporcional à simplicidade do aceno de dois dedos. É a constatação de que, às vezes, a felicidade não é uma grande metrópole fervilhando de possibilidades, mas sim uma pequena cidade adormecida, com aroma de maçã e onde a maior correria que se vê é a dos dedos do motorista, levantando e descendo, num eterno e bem-humorado convite à calma.

 

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