Mudar de cidade, para quem vem de uma metrópole, é como trocar um
liquidificador barulhento por uma xícara de chá. O silêncio, de repente, é
audível. E quando essa mudança te leva para um lugar chamado Porto Amazonas, a Capital Paranaense da Maçã, você
começa a suspeitar que caiu num conto de fadas bucólico. Ou, pior, num set de filme onde todos são figurantes muito, mas
muito, bem-humorados.
Eu, que achava que cortesia era só o nome de uma rua no centro, cheguei
aqui e descobri que é um modo de vida.
Em Porto Amazonas, às margens do nosso rio Iguaçu — que por aqui parece
ter tirado férias do estresse das quedas e está numa paz zen —, as pessoas não
apenas se cumprimentam, elas se reconhecem. Não é
aquele aceno protocolar de condomínio, onde você sorri e reza para que o
vizinho não queira puxar conversa. É um "olá" de quem realmente está
feliz por você estar vivo e andando na mesma calçada.
Mas o que me conquistou mesmo foi o aceno dos motoristas.
Preste atenção, leitor: o motorista porto-amazonense (se é assim que se chama
quem mora em Porto Amazonas, eu acho mais legal “amazônidas”) tem uma técnica
que deveria ser patenteada como a "Etiqueta do Volante Relaxado".
Lá na cidade grande, o motorista usa a mão para buzinar, gesticular
palavrões indecifráveis, ou, na melhor das hipóteses, para segurar o celular.
Aqui não. Aqui, a mão esquerda, a que segura o volante em posição para manter o
cruise control da tranquilidade, mal se move. São só dois dedos — o indicador e o médio, elegantemente — que
levantam, fazem um ballet discreto no ar e voltam à
posição. É um cumprimento minimalista. Um namastê
automobilístico que diz: "Paz, irmão. E cuidado com a casca da maçã".
Toda vez que recebo esse aceno, sinto-me parte de um clube secreto de
gente que não está com pressa.
E os pontos turísticos? Ah, a ironia geográfica!
Temos um Cristo no alto da colina, de onde
se vê um tapete verde-e-dourado que é ora soja, ora trigo, ora aveia. É uma
visão que te faz questionar o que diabos você estava fazendo na frente de uma
tela de computador. Lá de cima, o maior perigo que se avista é um possível
ataque de passarinho.
A Biquinha é a margem do rio, junto com o cais do porto
são a essência do lugar. E a Prefeitura, essa sim
é uma obra de arte do propósito. Ela foi construída em forma de barco,
lembrando que a cidade era um importante porto que ligava o interior a
Curitiba. O que é de uma poesia deliciosa, pois a estrutura de um barco remete
à travessia, à chegada e, principalmente, ao fato de que ninguém está ali ancorado no mau humor.
Vindo da selva de pedra, onde "ar puro" é sinônimo de
"ar-condicionado com filtro novo", e onde "clima agradável"
depende da tomada, eu estranho essa minha nova rotina. Estranho acordar com o
barulho de gralhas, sabiás e canários no Sítio do Pavão — com
seus açudes, arroio e trilhas magníficas — em vez do motor de um ônibus.
Mas a verdade é que o prazer de estar aqui é proporcional à simplicidade
do aceno de dois dedos. É a constatação de que, às vezes, a felicidade não é
uma grande metrópole fervilhando de possibilidades, mas sim uma pequena cidade
adormecida, com aroma de maçã e onde a maior correria que se vê é a dos dedos
do motorista, levantando e descendo, num eterno e bem-humorado convite à calma.

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