A Síndrome de Peter Pan e o Clima de Curitiba
Trinta e cinco anos. É o tempo que leva para um bom vinho
atingir a plenitude ou para um arrependimento sumir de vista. No meu caso, foi
o tempo que levei para voltar a Curitiba e descobrir que o vinho sou eu, o
arrependimento é o frio, e a cidade, bem, a cidade resolveu crescer sem me
consultar.
Saí jurando de pé junto, como quem promete nunca mais comer
jiló. A jura era contra o frio, aquele que te pega na esquina de maio e te
solta, por engano, em janeiro. O clima de Curitiba nunca foi de se comprometer.
Era um eterno indeciso, um Peter Pan meteorológico. Se o calendário dizia
“verão”, a cidade respondia com um arrepio e uma garoa fina que não molhava,
mas entrava na alma. E se você, coitado, se animava com o tal “veranico de
maio”, esse breve suspiro de calor em pleno outono, era só para te dar a falsa
esperança de que seu nariz ficaria seco.
Ah, a coriza de Curitiba! Ela era a trilha sonora oficial do
meu exílio. Mal o nariz pensava em ficar clean, lá vinha ela, líquida e
traiçoeira, seguida pelos malditos espirros que pareciam ter uma coordenação
rítmica com a oscilação da temperatura.
Eis que volto. Primeiro de dezembro, Curitiba vestida de
Natal – a tal “Cidade Sorriso” exibindo seus dentes de LED e suas bolas
vermelhas. E a gente, a gente! Gente vindo, gente voltando, gente subindo,
descendo, gente engolindo pão de queijo com gasosa , gente fazendo selfie com a
capivara que, aposto, já tem uma conta no Instagram mais movimentada que a
minha.
O que mais me chocou, além do fato de que o calor de
dezembro ainda tem um quê de brisa polar, foi o trânsito. Ah, o trânsito! Nos
meus tempos, reclamar do trânsito era um luxo, um passatempo de gente que tinha
tempo de sobra. Hoje, é um puzzle geométrico de buzinas. Eu, na minha
arrogância de ex-morador, pensei: “Quem dera fosse o trânsito de três décadas
atrás! Quem dera a gente pudesse ver o asfalto entre um carro e outro!” A
cidade deixou de ter aquela cara de cidade do interior que se incomodava quando
a gente demorava dez minutos para atravessar a Marechal Deodoro. Ela virou
metrópole, turbinada, estressada, linda e agitada. Uma lady que trocou o tricô
pela jaqueta de couro.
E eu? Eu, que hoje vivo no campo, onde o máximo de agitação
é a lebre que é surpreendia logo depois da curva e corre desesperada pela
estrada, que troquei o cheiro de ozônio da cidade pelo cheiro de terra molhada,
me vi como um namorado que reencontra a ex-namorada. Ela está mais bonita, mais
bem-sucedida, mais vibrante. E eu... eu sou o mesmo, só que com mais contas e
menos cabelo.
É um caso de separação consensual. Um divórcio seria
dramático demais para o meu humor. Mas percebi: ainda te amo, minha Curitiba.
Amo seu céu cinza que não te ilude com sol desnecessário. Amo sua elegância
discreta de quem sabe que não precisa gritar para ser notada. Você é uma menina
crescida, e eu sou um velho teimoso.
Você exige pressa, agito, casaco impermeável e coragem para
enfrentar a vida. Eu só exijo um banco na varanda e uma cuia de chimarrão. A
gente já não combina na rotina. Mas, de vez em quando, eu volto. Você me
recebe, de braços abertos e com o nariz pedindo para eu me agasalhar. E o meu
nariz, trinta e cinco anos depois, ainda te responde com um espirro.
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