O Milagre Molhado
O paranaense, em geral, tem uma relação de vizinho fofoqueiro com o clima. Mas em Porto Amazonas, a coisa ganha contornos de drama grego. Se passa de três dias sem cair um pingo, o assunto na padaria já não é mais o preço do pão, mas a "secura medonha".
E já faziam duas, talvez três semanas. Para os padrões locais, isso é quase um Saara com sotaque.
A paisagem começou a ganhar aquele tom de fotografia antiga, meio sépia, meio esquecida. As árvores na beira da estrada rural já não eram verdes; eram de um bege cansaço, sufocadas por aquela poeira fininha que levanta ao menor passo de um vira-lata ou de uma Rural Willys. A horta, coitada, apresentava um quadro depressivo: as alfaces curvas, as couves implorando por um armistício, e as flores do jardim com aquela sede silenciosa de quem já aceitou o destino.
O céu de Porto Amazonas brincava de esconde-esconde. Prometia, armava o cenário, escurecia ali pro lado da Lapa, mas nada. O povo olhava para cima com o pescoço torto, esperando o veredito.
Até que hoje, finalmente, a natureza resolveu abrir o caixa.
Começou com aquele cheiro. Você sabe do que estou falando. O "cheiro de terra molhada", que é, possivelmente, o melhor perfume já inventado, superando qualquer grife francesa. É o aroma do alívio.
Depois veio o som. Primeiro, uns pingos isolados, testando o terreno como quem bate à porta antes de entrar. E então, o rufar de tambores no telhado de zinco. Não há música de câmara que supere o ritmo de uma goteira bem afinada caindo lá fora, marcando o tempo de uma tarde que não tem pressa nenhuma de passar.
O ar, que antes parecia um lençol áspero, de repente refrescou. Ficou leve, lavou a alma das árvores e devolveu o brilho para as folhas. A poeira, derrotada, virou barro e sossegou no chão.
Dizem que a felicidade é um estado de espírito. Discordo. Em Porto Amazonas, depois de vinte dias de sol castigante, a felicidade é simplesmente o barulho da água batendo na calha enquanto a gente decide se faz um chimarrão ou se apenas fica ali, parado, ouvindo o mundo ser lavado.
E já faziam duas, talvez três semanas. Para os padrões locais, isso é quase um Saara com sotaque.
A paisagem começou a ganhar aquele tom de fotografia antiga, meio sépia, meio esquecida. As árvores na beira da estrada rural já não eram verdes; eram de um bege cansaço, sufocadas por aquela poeira fininha que levanta ao menor passo de um vira-lata ou de uma Rural Willys. A horta, coitada, apresentava um quadro depressivo: as alfaces curvas, as couves implorando por um armistício, e as flores do jardim com aquela sede silenciosa de quem já aceitou o destino.
O céu de Porto Amazonas brincava de esconde-esconde. Prometia, armava o cenário, escurecia ali pro lado da Lapa, mas nada. O povo olhava para cima com o pescoço torto, esperando o veredito.
Até que hoje, finalmente, a natureza resolveu abrir o caixa.
Começou com aquele cheiro. Você sabe do que estou falando. O "cheiro de terra molhada", que é, possivelmente, o melhor perfume já inventado, superando qualquer grife francesa. É o aroma do alívio.
Depois veio o som. Primeiro, uns pingos isolados, testando o terreno como quem bate à porta antes de entrar. E então, o rufar de tambores no telhado de zinco. Não há música de câmara que supere o ritmo de uma goteira bem afinada caindo lá fora, marcando o tempo de uma tarde que não tem pressa nenhuma de passar.
O ar, que antes parecia um lençol áspero, de repente refrescou. Ficou leve, lavou a alma das árvores e devolveu o brilho para as folhas. A poeira, derrotada, virou barro e sossegou no chão.
Dizem que a felicidade é um estado de espírito. Discordo. Em Porto Amazonas, depois de vinte dias de sol castigante, a felicidade é simplesmente o barulho da água batendo na calha enquanto a gente decide se faz um chimarrão ou se apenas fica ali, parado, ouvindo o mundo ser lavado.
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