O Preço da Paisagem
e a Moeda do Tempo
Era uma
dessas noites sem ar, carregadas de pólvora invisível, onde as ideias dançavam
um minueto irrequieto sobre a mesa da minha cozinha. Lembro-me da jovem, dona
de um par de olhos castanhos que pareciam guardar, não sei, talvez a promessa
ou a censura de gerações. Ela tinha aquela beleza firme, de quem sabe o valor
exato de cada coisa no mercado, inclusive o do tempo.
Discutíamos,
é claro. Sobre o quê? Pouco importa agora. Assuntos de jovens e de velhos,
sobre o que fazer com a vida, como medir a vida, se em milhas, em notas de
banco ou em suspiros. Eu, com a minha bagagem invisível de tantos anos de
mundo, e ela, com a sua conta bancária de certezas.
Foi
então que o assunto dela se quebrou numa flecha limpa e certeira. E disse, com algo
de ironia e com uma ponta de melancolia por mim: “Eu
entendo que é frustrante alguém viver por quinze anos em terras estrangeiras e
não conseguir acumular nenhum dinheiro...”
A frase
me atingiu, não como ofensa, mas como um sino tocado na hora certa, no lugar
certo. Era a lógica da Terra Firme, a aritmética da pátria, que falava através
dela. E eu, o vagabundo de alma, o mercador de paisagens, tive de dar de ombros
e sorrir. Porque era verdade, na folha de balanço deles: $Renda\ bruta\ =\ zero$. $Patrimônio\ adquirido\ =\ uma\ mochila\
velha$.
Mas
como explicar-lhe a jovem, que o meu mapa financeiro, com o correr dos meses e
o mudar dos sotaques, havia se rasgado e dado lugar a um pergaminho onde as
cifras eram outras? Não se tratava mais da ânsia de acumular, mas de uma fome
mais antiga e primitiva: a fome de aprender,
conhecer, experimentar, cheirar.
Ah, se
ela soubesse! Se pudesse ter cheirado o coentro forte e o cominho exótico nas
travessas de barro da América Central, onde a vida é dura e o sol é impiedoso,
mas o riso é vasto. Como quantificar a cor daquelas águas do Caribe, que
parecem ter roubado o azul do céu e o verde de todas as esmeraldas do mundo?
Mergulhei, sim. Mergulhei nas Antilhas, uma a uma, como quem folheia um livro
de contos.
Conheci
as gentes, não como turistas de passagem, mas como espectros que pousam e
escutam. Vi os sorrisos e os risos, o clarão da alegria que é sempre breve, e
as frustrações, o calvário de cada dia que é sempre longo. E, mais importante,
ousei compartilhar. Dormi em redes rangentes, em esteiras cheirando a sal, e,
em noites de lua cheia, simplesmente nas areias de uma praia deserta, com o mar
ninando meu sono como uma velha ama-de-leite.
O
dinheiro, minha jovem, compra o colchão, mas não compra o sono embalado pelo
mar. Compra a passagem, mas não compra a alma da cidade.
Quinze
anos! Fui um milionário sem moedas, um rico sem cofres. Vivi de uma riqueza que
o dinheiro jamais poderia comprar, porque ela só existe na permuta direta, na
troca franca entre o coração que se dá e a experiência que se recebe. Essa é a
minha moeda. E essa é a crônica do meu fracasso, que eu teimo em chamar de
tesouro.
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