sexta-feira, 27 de março de 2026

 

O Preço da Paisagem e a Moeda do Tempo


Era uma dessas noites sem ar, carregadas de pólvora invisível, onde as ideias dançavam um minueto irrequieto sobre a mesa da minha cozinha. Lembro-me da jovem, dona de um par de olhos castanhos que pareciam guardar, não sei, talvez a promessa ou a censura de gerações. Ela tinha aquela beleza firme, de quem sabe o valor exato de cada coisa no mercado, inclusive o do tempo.

Discutíamos, é claro. Sobre o quê? Pouco importa agora. Assuntos de jovens e de velhos, sobre o que fazer com a vida, como medir a vida, se em milhas, em notas de banco ou em suspiros. Eu, com a minha bagagem invisível de tantos anos de mundo, e ela, com a sua conta bancária de certezas.

Foi então que o assunto dela se quebrou numa flecha limpa e certeira. E disse, com algo de ironia e com uma ponta de melancolia por mim: “Eu entendo que é frustrante alguém viver por quinze anos em terras estrangeiras e não conseguir acumular nenhum dinheiro...”

A frase me atingiu, não como ofensa, mas como um sino tocado na hora certa, no lugar certo. Era a lógica da Terra Firme, a aritmética da pátria, que falava através dela. E eu, o vagabundo de alma, o mercador de paisagens, tive de dar de ombros e sorrir. Porque era verdade, na folha de balanço deles: $Renda\ bruta\ =\ zero$. $Patrimônio\ adquirido\ =\ uma\ mochila\ velha$.

Mas como explicar-lhe a jovem, que o meu mapa financeiro, com o correr dos meses e o mudar dos sotaques, havia se rasgado e dado lugar a um pergaminho onde as cifras eram outras? Não se tratava mais da ânsia de acumular, mas de uma fome mais antiga e primitiva: a fome de aprender, conhecer, experimentar, cheirar.

Ah, se ela soubesse! Se pudesse ter cheirado o coentro forte e o cominho exótico nas travessas de barro da América Central, onde a vida é dura e o sol é impiedoso, mas o riso é vasto. Como quantificar a cor daquelas águas do Caribe, que parecem ter roubado o azul do céu e o verde de todas as esmeraldas do mundo? Mergulhei, sim. Mergulhei nas Antilhas, uma a uma, como quem folheia um livro de contos.

Conheci as gentes, não como turistas de passagem, mas como espectros que pousam e escutam. Vi os sorrisos e os risos, o clarão da alegria que é sempre breve, e as frustrações, o calvário de cada dia que é sempre longo. E, mais importante, ousei compartilhar. Dormi em redes rangentes, em esteiras cheirando a sal, e, em noites de lua cheia, simplesmente nas areias de uma praia deserta, com o mar ninando meu sono como uma velha ama-de-leite.

O dinheiro, minha jovem, compra o colchão, mas não compra o sono embalado pelo mar. Compra a passagem, mas não compra a alma da cidade.

Quinze anos! Fui um milionário sem moedas, um rico sem cofres. Vivi de uma riqueza que o dinheiro jamais poderia comprar, porque ela só existe na permuta direta, na troca franca entre o coração que se dá e a experiência que se recebe. Essa é a minha moeda. E essa é a crônica do meu fracasso, que eu teimo em chamar de tesouro.

 

 A Síndrome de Peter Pan e o Clima de Curitiba

Trinta e cinco anos. É o tempo que leva para um bom vinho atingir a plenitude ou para um arrependimento sumir de vista. No meu caso, foi o tempo que levei para voltar a Curitiba e descobrir que o vinho sou eu, o arrependimento é o frio, e a cidade, bem, a cidade resolveu crescer sem me consultar.

Saí jurando de pé junto, como quem promete nunca mais comer jiló. A jura era contra o frio, aquele que te pega na esquina de maio e te solta, por engano, em janeiro. O clima de Curitiba nunca foi de se comprometer. Era um eterno indeciso, um Peter Pan meteorológico. Se o calendário dizia “verão”, a cidade respondia com um arrepio e uma garoa fina que não molhava, mas entrava na alma. E se você, coitado, se animava com o tal “veranico de maio”, esse breve suspiro de calor em pleno outono, era só para te dar a falsa esperança de que seu nariz ficaria seco.

Ah, a coriza de Curitiba! Ela era a trilha sonora oficial do meu exílio. Mal o nariz pensava em ficar clean, lá vinha ela, líquida e traiçoeira, seguida pelos malditos espirros que pareciam ter uma coordenação rítmica com a oscilação da temperatura.

Eis que volto. Primeiro de dezembro, Curitiba vestida de Natal – a tal “Cidade Sorriso” exibindo seus dentes de LED e suas bolas vermelhas. E a gente, a gente! Gente vindo, gente voltando, gente subindo, descendo, gente engolindo pão de queijo com gasosa , gente fazendo selfie com a capivara que, aposto, já tem uma conta no Instagram mais movimentada que a minha.

O que mais me chocou, além do fato de que o calor de dezembro ainda tem um quê de brisa polar, foi o trânsito. Ah, o trânsito! Nos meus tempos, reclamar do trânsito era um luxo, um passatempo de gente que tinha tempo de sobra. Hoje, é um puzzle geométrico de buzinas. Eu, na minha arrogância de ex-morador, pensei: “Quem dera fosse o trânsito de três décadas atrás! Quem dera a gente pudesse ver o asfalto entre um carro e outro!” A cidade deixou de ter aquela cara de cidade do interior que se incomodava quando a gente demorava dez minutos para atravessar a Marechal Deodoro. Ela virou metrópole, turbinada, estressada, linda e agitada. Uma lady que trocou o tricô pela jaqueta de couro.

E eu? Eu, que hoje vivo no campo, onde o máximo de agitação é a lebre que é surpreendia logo depois da curva e corre desesperada pela estrada, que troquei o cheiro de ozônio da cidade pelo cheiro de terra molhada, me vi como um namorado que reencontra a ex-namorada. Ela está mais bonita, mais bem-sucedida, mais vibrante. E eu... eu sou o mesmo, só que com mais contas e menos cabelo.

É um caso de separação consensual. Um divórcio seria dramático demais para o meu humor. Mas percebi: ainda te amo, minha Curitiba. Amo seu céu cinza que não te ilude com sol desnecessário. Amo sua elegância discreta de quem sabe que não precisa gritar para ser notada. Você é uma menina crescida, e eu sou um velho teimoso.

Você exige pressa, agito, casaco impermeável e coragem para enfrentar a vida. Eu só exijo um banco na varanda e uma cuia de chimarrão. A gente já não combina na rotina. Mas, de vez em quando, eu volto. Você me recebe, de braços abertos e com o nariz pedindo para eu me agasalhar. E o meu nariz, trinta e cinco anos depois, ainda te responde com um espirro.